Edson Néris

Hoje faz 11 anos do brutal assassinato do Edson Néris, espancado por integrantes da gangue Carecas do ABC, na praça da República.

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Numa época que homofobia virou moda, passando abertamente de minorias facistas para garotos da classe média e também fundamentalistas religiosos, nunca poderemos esquecer deste brutal crime homofóbico que comoveu a sociedade no início do ano de 2.000. O Gay reproduz abaixo o artigo da revista Época, “Intolerância sem ideologia”.

Intolerância sem ideologia

Carecas do ABC, grupo que espancou adestrador de cães até a morte, é formado por negros, nordestinos e outros integrantes de minorias

Sempre que ia a São Paulo, o adestrador de cães Edson Néris da Silva levava o pastor alemão Trupy no banco do carona do Fusca bege. Sentia-se protegido pelo animal. No sábado 5 o carro ficou na oficina. Néris seguiu solitário para a capital. Ia ao encontro do amigo Dario Pereira Netto. Às 19 horas entrou num trem na estação de Itapevi, município da região metropolitana da capital paulista. Minutos antes, o segurança Henrique Velasco e a mulher, Regina Saran, deixavam o filho Gustavo na casa dos pais de Henrique em Santo André, uma das cidades do ABC.

O casal seguiria de trem para São Paulo junto com um grupo de amigos. Chamavam a atenção pelas carecas reluzentes, pelas roupas pretas ou de camuflagem e pelos pés metidos em coturnos. Traziam a bandeira paulista costurada nas camisetas. Por pouco, Néris e a turma de Velasco não trombaram na Estação da Luz. Desembarcaram ali – mas o encontro de Néris com a gangue do ABC ocorreria no início da madrugada e seria fatal.

Pouco depois da meia-noite, o dono de Trupy atravessava a Praça da República, reduto de homossexuais no centro de São Paulo, de mãos dadas com Dario. Foi surpreendido por um esquadrão de carecas escondido atrás das árvores. Atingido por socos, o amigo de Néris conseguiu escapar. Refugiou-se na estação do metrô e pediu ajuda à segurança. Seu companheiro não teve a mesma sorte. Edson Néris da Silva caiu e foi dominado pelos algozes. Morreu com o corpo deformado a golpes de chutes e murros. Muitos deles desferidos com soco-inglês. Às 3h30 da madrugada do domingo 6, a polícia deteve 25 pessoas. Liberou sete menores e prendeu 16 rapazes e duas moças que tomavam cerveja no bar Recanto dos Amigos, no Bexiga, no centro da cidade.

A segurança Edilene Aparecida Bezerra guardava uma soqueira no bolso direito da calça. Não soube explicar a serventia da arma. As correntes, segundo os presos, faziam parte da indumentária dos Carecas do ABC. Ao depor à polícia, o barman Fernando Azadinho dos Santos, um dos integrantes do grupo de Velasco, culpou os companheiros pelo assassinato de Néris.
Todos foram indiciados por homicídio doloso e formação de quadrilha. Várias testemunhas reconheceram integrantes do bando que matou Néris como responsáveis por outras agressões. Não foi o primeiro ataque de fúria de grupos de carecas. Em 1996, o artista plástico Nilton Verdini Silva foi morto por 20 deles, quando invadiram a lanchonete Burger and Beer, em São Paulo.

O estudante Fábio Henrique dos Santos foi morto em Santo André em 1993. Era negro. Roberto Donizete Alves, que denunciara em entrevista a violência das gangues, foi esfaqueado. Em setembro de 1992, um grupo autodenominado White Powers pichou a Rádio Atual e o Clube do Forrobodó. Pediam a morte dos nordestinos. A programação da emissora é dirigida aos migrantes. No mesmo mês, dois judeus foram espancados por 12 carecas num bar em Santo André.
A ação das gangues começou nos anos 80. Os primeiros participantes desses grupos divergiam do movimento punk. Eram jovens operários ou filhos de operários. As diferenças se acentuaram e deram origem às facções. Os White Powers, versão nacional dos skinheads europeus, são os mais radicais. Seguem à risca a doutrina nazista. Pregam a supremacia da raça branca e defendem a morte de judeus, homossexuais, negros e nordestinos.

Os grupos de carecas dividem-se em subgrupos: Carecas do Subúrbio, Carecas do ABC e Carecas do Brasil, que agem no Rio de Janeiro. Dizem concordar com o integralismo, adaptação brasileira da ideologia fascista. Cultuam Plínio Salgado, o maior líder integralista nacional, e o nacionalista Gustavo Barroso. Apesar da proximidade com correntes ideológicas que se imortalizaram por professar a intolerância, as gangues de carecas foram obrigadas a incorporar integrantes de minorias, como negros e nordestinos. “Isso ocorre em razão da origem deles”, diz o sociólogo Túlio Kahn.

José Nilson Pereira da Silva tem 27 anos e é o melhor exemplo da miscigenação dos carecas. Negro, nascido em Vitória da Conquista, sul da Bahia, está há dez anos no movimento. “Defendemos nossa cultura e nosso povo”, afirma. Nilson, um dos acusados da morte de Néris, divide a cela com Juliano Sabino, de 28 anos. Apesar de ter concluído apenas o ensino fundamental, Sabino é um dos líderes do grupo. Sua retórica é uma colagem de clichês nacionalistas. “Carecas lutam por seus ideais, por seu país e pelo melhor convívio entre os semelhantes”, diz. Todos os envolvidos no assassinato de Néris moram na periferia de São Paulo. Dos 18, dez são menores de 21 anos e somente sete concluíram o ensino médio.

Marcelo Pereira Martins, de 19 anos, é o único universitário. Trancou a matrícula no curso de Processamento de Dados da Universidade Bandeirante (Uniban) por falta de dinheiro para pagar a mensalidade de R$ 500. Até ser preso, trabalhava como office-boy no salão de cabeleireiros do pai, Darcy Martins Filho. Ele começou a andar com os carecas no ano passado. Precisava ser batizado na turma. Raspou o cabelo pela primeira vez no sábado 5.

A noite em que Néris morreu marcou a estréia de Fernando Azadinho e Eduardo Pereira nas farras dos Carecas do ABC. “Na delegacia, meu filho Eduardo lembrou que há poucos dias eu dissera para que deixasse de andar com esse pessoal”, conta o alfaiate Braz Pereira. Nem todas as famílias sabiam do envolvimento dos filhos com o movimento e se negam a acreditar que eles participaram de um homicídio. “Ele é um filho exemplar. Estuda, trabalha e não cria problemas com ninguém”, diz Maria Dudas Gros Dias, mãe de Roberto Gros. “É duro ver um filho na cadeia.” Nabor Monteiro vale-se da origem da família para duvidar da culpa do filho Adriano. “Dizem que os carecas não gostam de nordestino. Se fosse verdade, ele tinha de ter matado a mim e a mãe dele”, diz o vigia, que nasceu em Monteiro, na Paraíba. Quitéria, mãe de Adriano, é pernambucana.

Na descrição dos pais, os algozes de Edson Néris da Silva parecem inofensivos – quase vítimas. Não são. Mataram o treinador de cães por causa do homossexualismo [sic].

Aos 35 anos, Néris tentava reconstruir a vida afetiva e profissional depois de desfazer o segundo casamento. Registrava tudo num livro contábil transformado em diário. Sem filhos, tinha voltado a morar com a mãe, Aurelina, e o padrasto, João Gabriel Raulino. Decorou o quarto com uma coleção de miniaturas de flores, garrafas de refrigerantes e réplicas da personagem Minnie, a namorada do Mickey Mouse. Na parede, um painel com fotos de amigos, livros e CDs de música instrumental. No final de 1999, Néris concluiu o ensino médio na rede pública e foi aprovado no vestibular de Ciências Sociais. Apostava no aumento da clientela para poder fazer a matrícula e pagar as mensalidades. Meia hora antes de ser assassinado, telefonou para a cunhada Liliane Fraga para avisar que dormiria em São Paulo. Disse que estava feliz porque havia três meses que parara de tomar o coquetel de remédios anti-Aids. Néris descobriu ser portador do vírus HIV há dez anos. “Meu filho era bom demais para perecer nessa selvageria”, lamenta a mãe de Edson Néris.

ENTREVISTA

“Trituraram meu filho”
João Gabriel Raulino, padrasto de Néris, cobra punição aos Carecas do ABC e desconfia da JustiçaDesempregado, o padeiro João Gabriel Raulino lembra com orgulho de sua principal ocupação em 1999. Em julho, com material doado pelos amigos, ergueu o quarto minúsculo em que o enteado Edson Néris da Silva morava desde agosto, no quintal da casa da família, em Itapevi, na Grande São Paulo. A gratidão do rapaz está registrada no diário. “Estou muito feliz. Meu pai me ajudou a construir minha casinha”, escreveu no dia 7 de agosto. Seis meses depois, Raulino ajudaria o enteado pela última vez. Vestiu seu corpo para o enterro. Estava assustado com a brutalidade dos carecas.

Época: Foi difícil preparar o corpo para o velório?
João Raulino: Muito. O corpo de Edson não ficava parado. Quando a gente levantava o peito para vestir a camisa, ele caía para o lado. Estava todo quebrado. Uma tristeza. Trituraram meu filho.

Época: Havia muitos hematomas e manchas pelo corpo?
Raulino: O pescoço dele estava grosso, um tronco. Mas o pior era a cabeça. A parte de trás estava partida em pedacinhos, como se tivesse pequenas rachaduras. Também tinha furos. Acho que esses ferimentos foram provocados pelo soco-inglês que usaram para bater no meu filho. As únicas partes inteiras eram as pernas e os braços.

Época: O senhor tem explicações para a morte de Edson?
Raulino: Não. Ele era uma pessoa muito querida. Para ter uma idéia, nossos amigos e vizinhos deram dinheiro e material para construir o quarto dele. Foi uma festa no dia da inauguração. No diário, ele contou a festa e me agradeceu a ajuda. Foi a última vez que ele escreveu no diário. Até o Fusca dele foi presente de um amigo.

Época: O que o senhor vai fazer com o quarto dele?
Raulino: Minha mulher quer alugar o mais rápido possível. Acho que se outra pessoa vier morar aqui vai nos ajudar a esquecer tudo isso que ocorreu.

Época: O que o senhor espera que aconteça com os acusados da morte de seu filho?
Raulino: Eu não quero pena de morte. Basta a Justiça divina. A Justiça da Terra é fraca.

Reportagem Daniela Mendes e Ronald Freitas para Revista Época

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By | 2017-12-20T15:52:53+00:00 Fevereiro 6th, 2011|Categories: São Paulo|Tags: , , , , |

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