Na noite desta quinta-feira, a mídia noticiou com muito alarde a detenção pela polícia de um grupo de pelo menos 20 skinheads depois de se reunirem na Praça da República, no centro de São Paulo. A Polícia Militar foi avisada por pessoas que passavam pelo local. Como acontecia no vale do Anhangabaú, próximo dali, a 11ª Feira Cultural LGBT, que faz parte dos eventos da Parada do Orgulho LGBT, a mídia já deu a entender que o grupo detido estava planejando algo contra os homossexuais da feira ou então uma ação no dia da parada.
Porém, poucas horas depois pelo Facebook, soube-se que os skinheads presos fazem parte do S.H.A.R.P, que não são homofóbicos e lutam contra o fascismo de outros grupos ditos skinheads. Os integrantes do S.H.A.R.P estavam reunidos para organizar a sua participação de apoio na parada gay, com manifestações antifascistas, da mesma forma que já fizeram participando da Marcha Contra a Homofobia que aconteceu na Avenida Paulista, em fevereiro de 2011.
Eles foram encaminhados pela PM para o 3º DP, de Campos Elísios, para averiguação. Ali eles foram cadastrados e foram liberados ao poucos. Segundo a mídia, “ninguém deu queixa de agressão contra eles”, é lógico, sendo que eles não fazem parte de grupo de intolerância.

Participação de skinheads e punks na Marcha Contra a Homofobia, na Avenida Paulista em fevereiro (foto: Massao Uehara)
Os verdadeiros skinheads acabam sendo vítimas do preconceito e discriminação, da mesma forma acontece com os homossexuais e os nordestinos nas mãos dos Carecas e de outros integrantes ditos skinheads dos boneheads, que na verdade não se passam de fascistas, integralistas de concepção política de extrema direita. O main stream da mídia jornalística brasileira simplesmente reproduz os fatos policiais, mas não faz a verificação da veracidade dos fatos, acabando informando de forma errônea e preconceituosa.
Aproveitando deste fato, publicamos trecho de um longo e-mail enviado para a nossa redação, muito esclarecedor sobre o Skinhead, e que talvez possa jogar um pouco mais de luz sobre esse movimento social incompreendido:
Bom dia,
Quero pedir desculpas pela informalidade, mas prometo ser objetivo. Antes de mais nada, gostaria de dizer que, aprecio suas fotos e muito de seus textos. Mas um que li recentemente, embora tenha sido publicado há 4 anos, me chocou bastante, nele eu vi totalmente os antônimos das reivindicações dos homossexuais. O texto em sugestão é este, “Eles têm ódio de que”[*], sei que não foi você quem escreveu, mas você publicou em sua página, se estou certo. Este texto de nada mostra o conhecimento do skinhead e do punk, o embasamento foram algumas gangues de São Paulo e só. E há até mesmo incoerência como em: “Freqüentam os mesmos lugares e compartilham os gostos musicais (reggae, ska e punk – de variadas vertentes). ” Está correto, o reggae e o ska (estilo musical oriundo da Jamaica e que deu início ao reggae) são sim músicas ouvidas por skinheads, mas logo abaixo e em todo o texto ele diz que os skinheads são racistas e que alguns até veneram Hitler, me diz, como pessoas que gostam de música negra podem adorar tal lixo racista? Encarecidamente, peço para que leia o texto que vou escrever abaixo.O skinhead nasceu na jamaica na metade dos anos 60, eram pobres jamaicanos, que cometiam alguns delitos e tinham gangues, muitos tocavam em grupos de ska, no entanto eram chamados Rude Boys. Sem emprego, foram para a Inglaterra, onde encontraram os Mods, eram garotos ingleses da classe trabalhadora que usavam um visual moderno(dai mod) e que amavam a música negra americana como o soul, blues, r&b e etc. aproveitando que os ingleses adoravam músicas negras, eles levaram o rocksteady e o ska. Fizeram muito sucesso. Do termo skinhead ainda não se sabe o por quê, mas acredita-se que como os jamaicanos tinham piolhos, eles raspavam a cabeça, os mods começaram a “copiá-los”, e em muitas músicas de ska foram imprimidas a palavra “skinhead” como nessa música: http://www.youtube.com/watch?v=qtOTodl4sVk , como pode ver o cantor é negro, um dos maiores ícones da música ska. Os mods viram que algumas bandas como The Beatles estava indo pro lado hippie, o que nada tinha a ver com o orgulho trabalhador e deixaram de ser mods ou então se denominaram “hard mods”, começaram a se vestir como os operários britânicos: botas; suspensórios; camisa xadrez.
Brancos e negros iam a bailes de ska dançar junto e confraternizar, os ingleses adoravam os jamaicanos. Fundaram o Two Tone, que também pode ser chamado de skinhead reggae, onde haviam membros negros e brancos nas formações das bandas.
O punk surgiu depois, nos anos 70. O skinhead já não tinham muitos adeptos e alguns se uniram aos punks, foi quando surgiu o Oi! que nada mais é um estilo musical que fala da união de punks & skins, as bandas punks tocam músicas punks feitas para punks, e as bandas skinheads, tocam músicas de skinheads para skinheads, embora muitas tinham membros punks e skins. O estilo retrata a vida dos grupos, nas ruas, no trabalho. É a expressão “rueira” dessas tão ditas “sub-culturas”, o que pra mim são completas o suficiente para serem chamadas de cultura. Não havia ainda racismo e nem política aqui. O anarco-punk é uma vertente distinta do Oi! muitos anarcos odeiam o Oi!Algum tempo depois, o partido nazista inglês, o National Front, viu que haviam muitos jovens de mente vazia nesses movimentos, o maior ícone deles foi Ian Stuart Donaldson, que a princípio era Skinhead, líder da banda de “early punk” Skrewdriver, depois de frustrações por ter sido proibido de tocar com sua banda em muitos lugares, por serem considerados uma banda violenta, em relação à brigas em shows, desfez a banda, mudou de estado e se aliou ao National Front. Quando re-fundou o Skrewdriver, recrutou outros membros e agora adotava uma postura inventada por ele mesmo, o RAC (rock contra o comunismo), na verdade o RAC é apenas umas desculpa pra que sejam explícitos toda a política e ódio neonazista, o que eles menos falam é sobre comunismo. Ian foi para o neonazismo como Goebbels foi para o nazismo, os maiores divulgadores deste lixo. Graças a ele, até hoje os skinheads são chamados de nazistas, a mídia inglesa gritava aos altos que skinheads tinham feito isso, que skinheads tinham atacado negros e etc.
Os reais skinheads chamavam os seguidores de Ian, de bonehead (cabeça oca), como o movimento skinhead estava em declínio e a maioria estava ligada ao Oi! (lembrando que neonazistas não eram skinheads! Só copiaram o estilo, por isso nunca se refira a um nazi como skinhead), muitos skinheads da época do auge do ska voltaram para as ruas e também novos skinheads surgiram com a temática de Spirit of 69′, ou seja um revivalismo à cena do final dos anos 60 onde o skinhead era apenas músicas e visual, sem preconceitos e políticas.
Foi criado o S.H.A.R.P (skinheads against racial prejudice, skinheads contra o preconceito racial) e o R.A.S.H (red and anarchist skinheads, skinheads comunistas e anarquistas) para combater o RAC e o neonazismo. O R.A.S.H foi muito aderido na época (todo rash é sharp, mas nem todo sharp é rash), fundaram o movimento anti-fascista, algumas bandas como The Red Skins e Oi Polloi foram muito importantes, inclusive o Oi Polloi tem uma música chamada “When Two Men Kiss” falando sobre a estupidez que é a homofobia, na frança os R.A.S.H combateram os nazi, armados com bastões de baseball, a mídia foi obrigada a divulgar o que era o R.A.S.H de tão forte que ficou, eles se tornaram seguranças em shows, impedindo a entrada de nazis e ajudaram muitos homossexuais, defendendo-os.
No Brasil, o movimento chegou na metade dos anos 80, mas não havia internet e nem informação disponível, então ouve uma total deturpação do que era o Skinhead. As informações que chegaram aqui é que skinheads ou eram nazi-fasci ou nacionalistas. O punk chegou antes aqui e totalmente deturpado também, para eles punks & skins eram rivais mortais, diferente do que dizia o Oi! E foram responsáveis por gritar para todos os cantos que os skins eram nazi. Na verdade, os skins daqui se chamavam de Carecas, apoiavam políticas de direita, muitos eram/são Integralistas e fascistas, mas muitos são apenas nacionalistas. Alguns carecas se diziam White Power, mas foram se desvinculando dos Carecas, que “apenas” são direitistas e não racistas, embora sejam homofóbicos, porque “preservam a família”, coisa de direita.
Hoje em dia, há muita informação, a maioria dos carecas não é racista e há também muitos R.A.S.H e S.H.A.R.P por aqui, muitos skinheads tradicionais (spirit of 69′) que se reúnem em dancehalls de reggae e ska, juntos de negros e qualquer tipo de etnia.
Conclusão
Publicar algo sem ter uma fonte real é fazer o mesmo que os homofóbicos fazem, é ter um PREconceito, é ignorância. Não estou querendo dizer que agora você tenha que gostar de skinheads. Sou um skinhead tradicional e S.H.A.R.P e tenho muitos amigos homossexuais, tanto homens e mulheres. O meu objetivo foi apenas explicar as coisas e abrir a sua mente para que não seja tão preconceituoso quanto um homofóbico. Já que és uma pessoa influente. Se quiser saber mais recomendo o documentário Skinhead Attitude, pode ser baixado em qualquer lugar na internet e tem esse blog: http://skinheadculture.blogspot.com/
[note]
Nota da Redação (08/09/11): o referido artigo é um clipping da Revisa Veja São Paulo, edição número 2032, de 30 de outubro de 2007. Apesar de um artigo escrito há quatro anos atrás, concordamos que o texto contém inúmeras incorreções referentes as tribos tantos dos skinheads, tantos dos punks.[/note]
Aqui, o comunidado do S.H.A.R.P no Facebook sobre a prisão dos 20 skinheads na Praça da República:
COMUNICADO A TODA A SOCIEDADE
Ontem, 24 de junho de 2011, o grupo da SHARP (Skinheads contra o preconceito racial, na tradução literal) foi abordado, humilhado, reprimido e preso pela Força Tática da operação do Centro de São Paulo. Eu, como integrante do grupo de militância e subcultura que é a SHARP, sim, fui junto.
Estávamos concentrados na Praça da República tratando dos assuntos sobre a Parada Gay. Iremos SIM comparecer à passeata, pois somos contra todo o tipo de preconceito e discriminação. Porém, ao ouvirem nós, skinheads ANTIFASCISTAS, combinarmos isso, algum homossexual nos denunciou e por fim passamos cerca de 4 horas sofrendo repreensão policial (um dos PMs que nos prendeu nos confirmou que a denúncia veio daí).
Para complementar, jornalistas e fotógrafos quebraram a barreira policial e mesmo conosco avançando neles, retrataram nossa imagem. Para quem pode ver nos jornais e sites informativos de emissoras, fomos denominados de “skinheads intolerantes que se reuniam para atacar os homossexuais na Parada Gay”.
Conosco, havia um homossexual que faz parte da frente Antifascista, o Danilo SantoS, e além disso sempre deixamos claro à quem interessasse ao que somos contra e ao que somos a favor. Não culpamos o cidadão que nos viu e se equivocou. Na sociedade manipulada por uma mídia interesseira, que se quer no momento nos deu a oportunidade de explicarmos quem somos e em minutos nossos rostos já foram expostos em rede nacional, as pessoas continuam dando importância à telinha de 29″ de suas salas.
Culpamos a repreensão policial e a incompetência dos jornalistas e da fotógrafa que não souberam lembrar que um fato tem dois lados. Eu, como estudante de jornalismo, passei a me questionar sobre a profissão que escolhi para mim.
Felizmente, depois que fomos liberados da delegacia, por volta das 21h, uma pequena equipe da Band nos esperou para que pudéssemos exercer nosso direito de resposta, previsto no artigo 5, parágrafo V, da Constituição Federal. Porém eu, novamente como estudante de jornalismo, espero que a edição que esses jornalistas façam seja fiel a palavra que a SHARP passou.
Sabemos que muitos cidadãos já sofreram agressão de White Powers/Neo Nazis, e que esses bastardos se denominam Skinheads. Mas, meus caros, que tal antes de aceitar qualquer denominação que lhes é imposta, porque não se interessam a descobrir qual é a real origem do termo e cultura Skinhead?
Nós da SHARP estamos reunindo nossas forças para resgatar essa cultura que foi denegrida por jovens intolerantes com posições políticas absurdas. SOMOS ANTIFASCISTAS, ANTIRACISTAS, ANTI A HOMOFOBIA, MACHISMO E QUALQUER FORMA DE DESIGUALDADE SOCIAL.
NÃO NOS VINCULAMOS COM O NACIONALISMO E MUITO MENOS COM O NAZISMO. INTOLERANCIA, SÓ COM ESSES BASTARDOS QUE AGRIDEM NOSSA CULTURA E A SEGURANÇA DA SOCIEDADE.
SE ALGUÉM QUISER NOS CONHECER E ATÉ MESMO, NA PARADA GAY, NOS AJUDAR A TIRAR ESSE FARDO DE PRECONCEITUOSOS, ENTRE EM CONTATO, FALEM CONOSCO.
NÃO SEJAM MANIPULADOS.
TODOS SOMOS IGUAIS E NÃO TERIAMOS MOTIVOS PARA NEGARMOS NOSSA POSIÇÃO ANTIFASCISTA.
STAY RUDE
STAY REBEL
STAY SHARPSHARP BRASIL ( SEÇÃO SÃO PAULO)




