O caso do vereador Ralf Leite com uma travesti de menor idade

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o vereador Ralf Leite (foto: Fablício Rodrigues)

o vereador Ralf Leite/PRTB (foto: Fablício Rodrigues)

Os jornalistas Marcos Lemos e Téo Meneses se juntam e escrevem uma longa reportagem, descrevendo minúncias, até os detalhes sórdidos, do rumuroso caso do vereador cuiabano (e bombeiro militar) Ralf Leite com travesti na manhã de ontem.

Eis a íntegra na Gazeta: Policiais militares, que procuravam ladrões de veículo, abordaram o carro do vereador, a Mitsubishi TR-4, de placa KAH – 8512. O veículo parado chamou a atenção dos soldados por causa do seu valor de mercado que atinge os R$ 100 mil e o local onde estava parado em frente a um motel no Zero KM. Consta no boletim de ocorrência (BO) que o travesti fazia sexo oral com Ralf. Ambos foram detidos e levados ao 4º Batalhão da PM, onde o vereador teria se recusado a fazer o teste de de alcoolemia (teor de álcool no sangue). Depois foi encaminhado ao Centro Integrado de Segurança e Cidadania (Cisc) do Parque do Lago, também em Várzea Grande.

História – Ralf Leite teria saído de uma boate em Cuiabá por volta de 4h para levar a namorada ao município de Várzea Grande. Quando retornava à Capital teria encontrado o travesti no Zero KM. “Eu cobrei R$ 50,00 pelo programa, ele (Ralf) me disse que estava caro e pediu um desconto, já que iria ser apenas sexo oral, então aceitei por R$ 30,00, mas na hora o carro foi abordado pelos policiais”, disse o menor D.B.S.C. Sem constrangimento, no Cisc, o adolescente retirou do bolso R$ 30,00 e mostrou para policiais.

a travesti D.B.S.C., 17, conhecida como Silvana

a travesti D.B.S.C., 17, conhecida como Silvana

No Zero KM, ao ser abordado pelos soldados Benedito Costa e Gomes, por volta das 5h, Ralf Leite saiu do veículo com as calças arriadas e a genitália à mostra. Ele ainda não havia se identificado como vereador. Ele apresentou o Certificado de Registro de Licenciamento Veicular e negou estar com a carteira de habilitação, o que motivou os policiais a levarem ao 4º Batalhão para o teste de bafômetro. Ele estaria embriagado e não portava documentos pessoais.

Autoridade – No momento em que ficou decidida a remoção para a sede da Polícia Militar, Ralf Leite se identificou como soldado do Corpo de Bombeiros Militar, apresentando então a identidade funcional militar. Os soldados pediram para o vereador aguardar enquanto fosse feita a checagem da veracidade do documento, o que Ralf Leite pediu que fosse deixado de lado. Na medida em que os policiais passaram a checar o documento, o vereador se alterou, conforme consta no BO, e passou a ameaçar os soldados militares dizendo: “Vocês não sabem com quem estão falando. Eu sou filho do coronel Leite e vereador pela cidade de Cuiabá. Eu posso mandar vocês para onde eu quiser”.

Segundo os soldados, as ameaças do vereador os levaram a comunicar a situação ao superior imediato que determinou a remoção dele e do travesti ao 4º Batalhão onde outras discussões e agressões se sucederam, inclusive com acusações de coação do menor que teria informado ter 17 anos. Por determinação do comandante do 4º Batalhão, major Helder Sempaio, foi feita a remoção de Ralf Leite e do adolescente para o Cisc do Parque do Lago, onde o caso foi assumido pelo delegado Ely Roberto Ambrosio.

Ocorrência – Por volta das 9h, delegado responsável informou que o BO apresentava como natureza da ocorrência crimes de desacato e ameaça, o que segundo ele são “de menor poder ofensivo”. Ely Roberto determinou que fosse feito termo circunstanciado e a liberação do acusado para responder a acusação no Juizado Especial de Pequenas Causas e a continuidade da investigação para a Delegacia do Jardim Glória.

O prédio do Cisc ficou lotado por jornalistas, advogados, vereadores e curiosos. O delegado informou que Ralf Leite não estava detido nem preso, apenas aguardava para prestar esclarecimentos, mesma condição do adolescente.

O pai de Ralf Leite, o coronel aposentado pela PM Edson Leite, diretor-presidente do Hospital da Polícia Militar, esteve no Cisc e defendeu o filho, apontando que tudo seria esclarecido e tudo não passava de engano. Ele tentou libertar o vereador, mas não conseguiu.

Socorro – Logo depois chegaram alguns vereadores, o companheiro de partido, Néviton Fagundes, e depois os vereadores Clovito Hugueney (PTB) e o líder do prefeito, Paulo Borges (PSDB), que disseram levar solidariedade e atender pedido do prefeito Wilson Santos (PSDB) e do secretário de governo, Osvaldo Sobrinho (PTB).

Por determinação do presidente da Câmara, vereador Deucimar Silva (PP), o consultor jurídico Lauro da Matta esteve na unidade policial, conversou com as autoridades e com o vereador e disse que informações seriam levadas ao conhecimento do presidente e pediu cautela e bom senso na apuração dos fatos ocorridos e começou a falar na tese de que tudo não teria passado de armação. Logo depois os vereadores sugeriram extorsão por parte dos PMs, o que irritou soldados que aguardavam o desfecho do problema.

Coronel Sampaio conversou com o delegado, com os advogados e com o adolescente. O oficial da PM se irritou ao saber que o vereador acusado seria solto. Sampaio sugeriu entregá-lo à Corregedoria do Corpo de Bombeiros, pois na condição de soldado, mesmo exercendo mandato eletivo, o crime seria militar. Se afastado pesaria ainda a acusação de falsidade ideológica, outro crime que chegou a ser sugerido, inclusive a corrupção de menores, que é inafiançável.

Passava do meio-dia quando, visivelmente abatido, Ralf Leite saiu pelos fundos do Cisc, abraçado a um dos seus advogados e amigos. Ele gritou que “este é o preço da honestidade. Não pago R$ 600,00 para nenhum policial militar”, disse o vereador. Para provocar, disse que “é heterossexual, pode perguntar para todas as mulheres de Cuiabá”.

Comissão – O caso envolvendo Ralf Leite vai ser investigado pela Comissão de Ética da Câmara de Cuiabá, que pode cassar o mandato do parlamentar por falta de decoro. Sobre essa possibilidade, o presidente do Legislativo, Deucimar Silva (PP), afirmou ontem que as normas de conduta moral dos vereadores serão respeitadas, mas com serenidade e sem precipitações. Fazem parte da comissão Néviton Fagundes, filiado ao mesmo PRTB de Ralf Leite, Lueci Ramos e Domingos Sávio.

“De antemão, porém, (Mesa Diretora da Câmara) reafirma o compromisso com a transparência das ações e na apuração de todo e qualquer fato que envolva seus integrantes e sempre se pautará pela lisura e honradez em defesa da dignidade dessa casa de leis”, disse Deucimar, em trecho de uma nota pública divulgada pela assessoria da Câmara depois que o presidente cancelou uma entrevista coletiva para tratar do assunto.

Deucimar cancelou a coletiva porque seguiu a Chapada dos Guimarães, onde se reuniu com Ralf Leite no início da noite. O vereador solicitou o encontro na tentativa de justificar o que aconteceu. A entrevista de Deucimar deve ser concedida hoje.

Preocupação – Os aliados de Ralf Leite já se mostram preocupados com um possível cassação por falta de decoro parlamentar, já que o Regimento Interno da Câmara e a Lei Orgânica do Município preveem a perda de mandato por episódios que afetem a imagem do Legislativo.

A punição pode ocorrer com base no inciso 2º do artigo 20 da Lei Orgânica, que prevê a perda de mandato em caso de “comportamento incompatível com o decoro parlamentar ou atentatório às instituições vigentes”. O artigo 90 do Regimento Interno também segue na mesma linha, apesar de a Câmara não ter Código de Ética, que chegou a receber parecer pela aprovação das comissões permanentes do Legislativo depois de ser sugerido pelo ex-vereador Permínio Pinto (PSDB) ainda em 2007.

Orkut – O escândalo envolvendo Ralf Leite virou até notícia nacional em vários sites do país inteiro. O maior destaque foi dado pelo site Mídia Max, de Campo Grande (MS). Na maior página de relacionamentos da Internet, o Orkut, o vereador foi alvo de vários palavrões e críticas na sua página pessoal. Até a semana passada, quando A Gazeta publicou matéria sobre políticos que mantêm sites na Internet, o espaço era usado apenas para recados de amigos e elogios ao parlamentar, já que o próprio vereador fiscaliza os recados antes de serem divulgados. Como ele não pôde fazer isso, porque estava detido, palavrões fugiram do controle.

via Jornal Básico

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