Desde que admitiram o relacionamento de 11 anos na capa da revista Época, em junho último, a vida de Fernando Alcântara de Figueiredo e Laci Marinho de Araújo passou por uma revolução. Fernando, que acompanhou a prisão do companheiro, acusado de deserção pelo Exército, e mobilizou associações de direitos GLBT (gays, lésbicas, simpatizantes e transgêneros)e entidades de direitos humanos, conta sua versão dos fatos no livro Soldados Não Choram. “Recontar toda a história foi um misto de indignação e tristeza”, disse a QUEM.
O livro conta a trajetória dos dois desde a infância e passagens polêmicas como a entrevista do Superpop. Em um dos capítulos, o ex-sargento insinua que a produção do programa da Rede TV! teria armado para que Laci fosse preso ao vivo. Procurada por QUEM, a assessoria da emissora não quis se pronunciar.
Os sargentos ainda não se desligaram totalmente do Exército. Julgado e condenado, Laci já cumpriu um terço da pena e aguarda o indulto de Natal para deixar para trás a vida militar. Fernando afastou-se do Exército no fim de julho, mas responde por tentativa de desprestigiar as Forças Armadas.Desde que deixou a prisão, Laci mora com Fernando na casa de uma amiga, a quem eles chamam de “mãe adotiva” do casal, Miriam, em um condomínio em Brasília. “Depois da confusão, o Laci voltou a fazer tratamento e foi diagnosticado que ele tem uma epilepsia do lóbulo temporal. Ele dorme até tarde por causa da medicação forte”, diz Fernando. Quando não está envolvido com a divulgação do livro, o ex-sargento – que tem o projeto de abrir uma ONG para ajudar vítimas de homofobia – leva o parceiro para caminhar no parque, à casa de amigos ou ao teatro – os dois não conseguem mais ir à padaria em paz. “Sinto falta da rotina, mudou tudo. Mas, aos poucos, as coisas estão voltando ao normal.”
Fui motivado em primeiro lugar pela possibilidade de fazer carreira. Mas também pesou na escolha a visão juvenil do trabalho dos pilotos – que então me parecia venturoso e heróico. Não posso deixar de mencionar o filme Top Gun – Ases Indomáveis, que estreou no Brasil em 1986 e ainda estava vívido em minha cabeça.”
sobre os motivos que o levaram à carreira militar
“Uma produtora entrou no estúdio e cochichou no ouvido da apresentadora (Luciana Gimenez), que fez uma cara de espanto, uma máscara teatral nada convincente, e disse que não podia acreditar, que se recusava, se recusava a acreditar no que estava ouvindo. Então percebi: havíamos caído na armadilha que tanto tentáramos evitar. Percebi antes que ela se virasse para a câmera e dissesse, com todo o dramatismo que sua capacidade lhe permite: eles estão aí.”
sobre o cerco do Exército à Rede TV!
“Passei pelo ‘poste argentino’ – uma tora de madeira disposta na horizontal, na qual ficávamos pendurados, com as pernas entrelaçadas, enquanto uns grandões saltavam sobre nossas coxas. Também passei pelo pau-de-arara, fiquei amarrado com a cabeça para baixo.”
sobre o treinamento torturante
“Sofri assédio sexual de vários oficiais – que se sentiam no direito de fazer isso com seus subalternos quando descobriam que estes eram gays ou bissexuais.O curioso é que eram todos casados.”
sobre o assédio no Exército, em Brasília
“Já nos considerávamos um casal. Ele encarou isso com naturalidade desde o início. Mas eu tive de me adaptar. Passei a ler tudo que encontrava sobre o assunto.”
sobre viver com um companheiro do mesmo sexo
“O esquema montado contra nós apareceu em sua plenitude e com todo o seu caráter homofóbico no dia 28 de março de 2007.”
sobre as ordens de transferência que separaram o casal
“Com a ajuda de um produtor musical, gravou um demo e começou a formar sua banda. Eu o ajudei em cada passo – como se fosse seu empresário. Pusemos um anúncio no jornal para atrair músicos e assim surgiu a banda Terceira Visão. Ela passou por várias fases.”
sobre o início da carreira musical de Laci
“Eu cheguei em casa e o encontrei caído, no chão, sem conseguir se movimentar. Não parecia uma convulsão. Lembrava uma crise de labirintite, dessas em que as pessoas perdem a capacidade de se manter equilibradas. Procurei socorro. Enviaram uma UTI móvel. Depois da crise, ele parecia deprimido e sonolento. Não se lembrava do que tinha ocorrido. Outras crises vieram. Passou por vários neurologistas e cada um deles tinha um diagnóstico diferente. Lesão medular. Coágulo cerebral. Tumor. E, por último, esclerose múltipla.”
sobre a doença de Laci
Reportágem Ana Paula Sousa para Revista QUEM


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